




Segundo definiu a ADA (Associação de Dietética Americana) em 1995: ''alimento funcional é qualquer alimento modificado ou ingrediente alimentar que pode fornecer benefícios à saúde, além dos nutrientes que normalmente contém''. E, posteriormente, em 1999: ''alimentos funcionais são alimentos (in natura, fortificados ou enriquecidos) potencialmente benéficos para a saúde quando consumidos regularmente, como parte de uma dieta variada, e em níveis efetivos'' (2).
Já o Consenso Europeu atualmente define: ''um alimento pode ser considerado como funcional se os benefícios sobre uma ou mais funções orgânicas forem safisfatoriamente demonstradas, além de seus valores nutricionais, e de um modo relevante, tanto para a promoção da saúde e bem-estar quanto para a redução de riscos de doenças. Os alimentos funcionais devem permanecer como alimentos, e seus efeitos devem ser demonstrados em quantidades que possam ser normalmente ingeridos em uma dieta; não são pílulas ou cápsulas, mas componentes de um padrão alimentar'' (3). Nos parece que o Consenso Europeu é mais abrangente e melhor direcionado que as definições apregoadas pela ADA. De qualquer forma, vale uma análise do que já foi publicado pela comunidade científica.
Diversos nutrientes e compostos bioativos têm despertado interesse de estudiosos, do público e da mídia. Dentre eles, inicialmente citamos o óxido nítrico, um anticoagulante produzido pelo aminoácido L-arginina no endotélio, que tem poder de proteção cardiovascular e de prevenção do Mal de Alzheimer, influenciado pelo mecanismo vasodilatador do ácido ascórbico e de polifenóis do ginseng e do chá preto (4). Foi demonstrada a ação na prevenção de doenças coronarianas e de tumores de próstata do licopeno, um pigmento que confere a cor avermelhada a frutas e vegetais como tomate, goiaba e melancia. Este pigmento é mais bem absorvido quando cozido, pois o calor rompe as paredes das células e libera licopeno de uma matriz de proteínas e fibras, sendo portanto, mais favorável o consumo de molho de tomates do que de tomates frescos para se obter a metabolização de licopeno.
Com maior amplidão temos os estudos que enfocam os compostos fenólicos presentes nas uvas e vinhos como fatores de proteção cardiovascular, com efeito antiinflamatório e ação anticancerígena. Já se conhece que os alimentos possuem milhares de carcinogênicos e anticarcinogênicos. Além das uvas, tomates e melancia é conhecida a ação da soja como fator anticâncer. A soja possui também fitoestrógenos que abrandam os sintomas da menopausa e auxiliam na redução do LDL-colesterol sérico. Outras substâncias e nutrientes que compõem a soja atuam na redução da glicemia pós-prandial, melhoram o trânsito intestinal, têm ação antioxidante e reforçam a imunidade celular (5). Outras pesquisas não conclusivas apontam para a relação entre carências subclínicas de microelementos como zinco, cobre e selênio com o aumento do risco de doença cardiovascular e com rebaixamento da imunidade. Ainda parece haver evidências de que distúrbios no metabolismo do cálcio e do ferro podem ter papel relevante no desenvolvimento da aterosclerose e na indução a peroxidação da membrana das células do endotélio, favorecendo a formação da lesão aterosclerótica.
Em relação aos aminoácidos, destacam-se os estudos sobre glutamina, um aminoácido não essencial, principal combustível oxidativo das células epiteliais, que desempenha importante papel da estrutura e das funções intestinais. Tem também efeitos benéficos na manutenção das funções do sistema imunológico e reduz a degradação protéica em pacientes em estado catabólico intenso.
Além do papel reconhecidamente comprovado da alimentação na manutenção da saúde, aponta-se um caminho para a obtenção e manutenção de hábitos alimentares mais saudáveis, incluindo os alimentos in natura ou processados, mas que originalemente contém componentes com ação funcional, como os pre e probióticos, já amplamente divulgados na mídia e prescritos por nutricionistas nos mais diversos diagnósticos nutricionais e situações clínicas.
Discussão da revista perante o tema ''Alimentos Funcionais''
A nosso ver, não há mais retorno, os funcionais farão parte da prática de nutricionistas clínicos, de responsáveis por alimentação coletiva em todas as faixas etárias e de renda, daqueles que acompanham atletas e praticantes de atividade física, dos que atua em diferentes áreas da saúde coletiva e também do nutricionista que desenvolve seu trabalho na indústria de alimentos. O nutricionista deve procurar o seu lugar neste universo. Como intérprete da ciência da nutrição e dos alimentos, o profissional deve estar preparado para coordenar estudos e viabilizar a aplicabilidade destes nos mais diversos grupos populacionais, elaborar programas de saúde coletiva e saúde pública que apliquem a ciência dos alimentos funcionais, elaborar consensos em nutrição clínica para as diversas enfermidades onde a ciência dos alimentos funcionais possa ser aplicada, criar guias alimentares que contemplem o consumo de alimentos funcionais e liderar equipes multiprofissionais.
Desta forma, é necessário que a ciência dos alimentos funcionais faça parte dos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação de nutrição, de forma a ampliar o conhecimento do profissional que deve estar preparado para a prescrição de planos alimentares que possam incluir alimentos funcionais, assim como ampliar a pesquisa sobre a ação funcional de substâncias, ingredientes e alimentos.
No momento as evidências apontam para a atividade funcional nas doenças não transmissíveis, principalmente neoplasias, doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, diabete, artrite, reumatóide e osteoporose no que tange ao sistema imunológico. Contudo, a perspectiva é que com a ampliação do conhecimento aos alimentos possam ser indicados para situações agudas, como já vem ocorrendo com o uso de suplementos e fórmulas dietéticas em pacientes graves, como no estresse metabólicos e nos traumas.
O mercado crescente vai exigir profissionais habilitados também para o desenvolvimento de produtos alimentícios que incluam ação funcional de forma a expandir a ação na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Mas vale uma ressalva quanto à legislação de produção, marketing e comercialização dos produtos alimentícios com atividade funcional. É necessário que a sociedade se conscientize de que assim como os demais componentes da dieta humana, as substâncias e nutrientes com atividade funcional devem ser exaustivamente estudados para serem então recomendados como elementos de promoção de saúde e da prevenção e cura de enfermidades. A legislação deve contemplar a formulação, a industrialização, a rotulagem, e a comercialização destes produtos, além do direcionamento da propaganda e do marketing que devem ser baseados na ética e na proteção ao ser humano.
Fonte: Revista Nutrição Profissional - Celeste Elvira Viggiano
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